No shopping ninguém escuta

02/03/2010 por Beto Leite · 8 Comentários 

piano

Éramos quatro sentados em uma mesa. Mas mesas e pessoas tinham muitas, afinal estávamos na praça de alimentação do Natal Shopping. O que faltava era atenção. Uma garota tocava violão no meio da praça e ninguém dava o menor cabimento. Ela fechava os olhos buscando concentração para não errar as notas. Dava seu melhor. Completamente sozinha no meio da praça de alimentação do Natal Shopping. Existe solidão maior?

Todo shopping emite um som próprio, padrão, que não vem das caixas de som. O ruído é de pessoas falando simultaneamente. Muitas pessoas. Faça o teste, entre em um shopping, cale a boca e feche os olhos. Quando você notar esse fenômeno acústico deve chegar à mesma conclusão que eu. Ninguém escuta no shopping. E lá estava a garota com seu violão, mostrando música para quem não escuta.

Disse no primeiro parágrafo que ninguém a notava. Mentira. Além de mim, existiam duas mesas, seis pessoas, que observavam atentas. A semelhança física denunciava: familiares. Imagino que tocar em um lugar onde existem milhares de pessoas e apenas os familiares dão atenção, deve ser uma espécie de ilusão decadente. Pronto, suponho que agora alguém deva está com raiva de mim. Algum músico que tocou no Natal Shopping, que vai colocar nos comentários como recebeu convites para tocar na Europa depois da apresentação. Bem, adianto que isso não me interessa. O assunto aqui é a menina com a roupa, a voz, o jeito de tocar da Ana Carolina, que toca músicas de Legião Urbana e Ana Carolina na praça de alimentação do Natal Shopping. O tema é a infelicidade, o artista decadente.

Perguntei se existia solidão maior do que a dela. Existe, a do pianista no Midway. Não sei se ele ainda vai tocar lá (não sou um assíduo freqüentador do lugar), mas na primeira vez que o vi, a aflição me triturou o peito. Primeiro que o pianista usa uma espécie de terno típico de pianista (desculpe a ignorância), o seu instrumento é mais clássico, difícil de encontrar, maior, o que só piora a situação. Multiplique a solidão do pianista por três pisos lotados de pessoas completamente surdas. Por fim, o golpe de misericórdia, uma mulher e duas crianças estão em pé, ao lado do piano, escutando. Ao final de cada música eles aplaudiam. Juro, eu tive vontade de chorar.

O que ele tocava eu não sei. Mas eu queria que ele tocasse uma música que fizesse parar o tempo. De repente todas as pessoas iriam se calar. Então, apenas escutando, tomariam um susto ao perceberem que não estão sozinhas.