Quinta-feira no Nalva
- sábado, outubro 31, 2009, 14:59
- Reportagem, Resenhas, Últimas
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Assim que entrei, de mochila nas costas, fui logo em direção ao bar. “Uma cerva, por favor.” Nalva põe a última latinha no balcão. Bebi com gosto. Olhei ao redor, “Pô, essa parada deve tá acabando”, pensei.
Encontrei um conhecido. “Cara, já rolou alguma coisa aqui?”. No que ele me responde que não. Eu tava na dúvida se ainda valia a pena aparecer no Nalva Café Salão às oito da noite. Era o relançamento do livro da Civone Medeiros, que estava marcado pras seis. Achei que chegando duas horas atrasado eu teria perdido muita coisa. Mas aos poucos fui vendo que o rolé estava mesmo era no começo.
Paulo Souto comandava um som massa, uma galera batia um papo fora do salão, outros conversavam nos sofás, Nalva atendia os convidados, Civone não parava quieta, uma turma não saía do balcão com uns quitutes free. E Eu, de gaiato, zanzava por ali.
Quem estava presente no evento era Chico Guedes, colunista dessa Revista, a quem eu nunca havia sido apresentado. Gente fina demais. O acompanhei na birita e na conversa. Foi ele, por sinal, que me apresentou ao pessoal do grupo Facetas, e à galera do Gesto Cascudo, que também marcava presença no Salão.
Paulo Souto saiu e deu lugar a Simona Talma e Luiz Gadelha, que juntos encantaram a galera com ótimas músicas. Numa saída do banheiro, eu sou pego de surpresa com uma cena estranha. Um cara de joelhos no chão, demonstrando um certo sofrimento. Era uma performance.
No Nalva Café Salão é assim: teatro, performance, cinema, música, literatura e por aí vai. São 15 anos de trajetória desse espaço cultural na Ribeira, criado pela batalhadora cabeleireira e maquiadora Nalva Melo. Por isso, para festejar o aniversário de maneira decente, Nalva bolou uma extensa programação comemorativa que está rolando desde março deste ano.
Já houve de festa a fantasia à 2ª Mostra Coletiva de Artes Plásticas. Cada mês há algo diferente. Em outubro, a idéia foi a de reviver a atmosfera artística gerada pelo lançamento do livro de poemas “Escrituras Sangradas – Toscas Fatias de Escrevinhaduras”, de 1999, da escritora e performer Civone Medeiros, que fez história no espaço.
Dessa vez, além do primeiro livro, também foi lançado o livro 2 “Escrituras Sangradas – Ave de Arribaçã ou a propósito de Viena e outros Ondes”, com poemas de 99 pra cá. Dentro da programação: recital de poesia, música e intervenções artísticas.
Eu seguia bebendo. Já tava juntando moedas e tinha partido pras doses cortantes de cana. Foi com o copo na mão que me foi entregue, por um artista que realizava uma interessante apresentação em homenagem a Civone, um envelope com algo escrito. Tive que ler em voz alta, e li: “O que não há de belo em mim deixo aos conhecidos e estranhos”. Tratava-se de um verso extraído do poema Inventário de uma Morta, do Escrituras Sangradas #1.
Troquei uma idéia rápida com Civone, no que ela aproveitou pra relembrar da mancada da Catorze ao chamá-la de Vovó da performance. Por sinal, o erro está corrigido. Não tem como apontar uma artista como vovó quando se percebe que ela está sempre renascendo, como uma fênix.
Do Nalva, fui tomar a saideira no Buraco da Catita.
Em novembro Nalva pretende realizar uma grande festa dedicada à música. Para dezembro a idéia é outra: organizar novamente o Mercado das Pulgas, onde é possível encontrar uma variedade de objetos.
OFERTÓRIO
TE OFEREÇO MEU CAFÉ AMARGO
Para que você possa distinguir o agridoce de meus beijos cálidos
TE OFEREÇO MINHA EBRIEDADE
Para que você possa gozar de minha lúdica lucidez
TE OFEREÇO MEU ORGASMO SILENTE
Para que ouça os gemidos e gritos estridentes de minh’alma
TE OFEREÇO MINHAS LÁGRIMAS DE GOZO
Para nosso sexo ser humano
Prazeroso
TE OFEREÇO DO MEU VINHO UM TRAGO
Trago do cigarro
TE OFEREÇO UM POUCO
Trago um desejo louco
De sorver-te…
Não posso me dar toda
TE OFEREÇO DE MIM UM POUCO
TE OFEREÇO UM TRAGO DO MEU CORPO
Um trago
TE OFEREÇO MEU OLHAR VENENOSO
Para que descubra a cura no meu riso solto
TE OFEREÇO MINHA DISPLICÊNCIA
Para te lembrar que nem sempre as boas coisas da vida guardamos
ENTÃO, TE OFEREÇO UMA CHANCE:
Receba o que te ofereço
E de quebra,
NÃO ME ESQUEÇA!
Civone Medeiros
Escrituras Sangradas – Toscas Fatias de Escrevinhaduras
Foto: Rebeca Correia
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