Cultura na Vila

Fábio Farias

Maíra Leal usava um short preto com um alicate amarelo no bolso. Ela lia emails quando cheguei à sua casa para entrevista. Olhava com concentração a tela do computador. Um senhor com uma extensa barba branca e fala mansa se aproximou calmamente e pediu que esperasse um pouco. Súbito, Maíra levantou e me chamou para ir à biblioteca pública que estavam construindo num terreno do lado da casa onde moravam.

O senhor de barba branca chama-se Antônio Leal. Hoje aposentado, ele trabalhou na década de 80 em um projeto de educação na favela da rocinha. Junto com Graça Leal e os filhos – Gil e Maíra – eles mudaram-se para a Vila de Ponta Negra, bairro periférico de Natal, em 1992 por motivos relacionados à saúde do patriarca. Antes, a família com origens do Rio de Janeiro e de Belém morou uma temporada em Tiradentes, Minas Gerais.

Em 2002 a família Leal transformou a casa na Vila de Ponta Negra – que já foi uma pousada – em um Centro de Cultura. Graça Leal dava aulas de artes plásticas gratuitas para as crianças da comunidade. Em 2004, através do projeto Sons da Vila, eles conseguiram transformar o local em um Ponto de Cultura reconhecido pelo Governo Federal. Hoje atuam como cineclube com sessões semanais, realizam oficinas de artesanato, promovem a cada dois meses o Côco Embolada para os moradores e estão prestes a inaugurar uma biblioteca pública para a comunidade.

A biblioteca é fruto do programa Mais Cultura do Governo Federal. O Centro recebeu recentemente 650 livros para a montagem do local. Esse número vai crescer para dois mil, segundo Maíra. O espaço, ainda em construção, contará com uma sala de estudos, haverá contação de histórias, além de um computador com internet, e deverá funcionar quatro horas por dia durante a semana. A inauguração está prevista para esta sexta-feira.

Fábio Farias

A entrada da biblioteca pública é protegida por grades. A Vila de Ponta Negra é um dos bairros mais violentos da Zona Sul de Natal. Próximo ao principal cartão postal da cidade, o bairro sofre com o tráfico de drogas, a prostituição e o esquecimento do poder público. Por conta disso, o lugar é marginalizado e esquecido pela maioria das pessoas. O Centro de Cultura já teve, por exemplo, duas câmeras de vídeo roubadas. Por isso, a ação cultural que desenvolvem vem acompanhada de outra, a social.

“O sonho da maioria das garotas aqui, quando não engravidam ou viram prostitutas, é de se casar com um gringo”, afirma Maíra Leal. Nas sessões semanais de cinema, a maior parte do público que recebem é de crianças – muitas iam apenas pelo lanche que era oferecido nas primeiras edições do cineclube. Os pais largam os pequenos por lá e Maíra tem contato com a realidade deles: muitos com parentes viciados em crack, famílias esfaceladas pelo álcool e sem nenhuma perspectiva para o futuro.

Para as mães, o Centro de Cultura da Vila de Ponta Negra oferece uma oficina de artesanato. No entanto, eles confessam que é difícil atrair os adultos. São pessoas, em sua maioria, com a auto-estima baixa, com a cultura destruída. Antônio Leal fez uma pesquisa histórica e um levantamento cultural no bairro e descobriu que, diferente do que a maioria pensa, a Vila de Ponta Negra tem tradição agrícola e, quando foi formada, tinha forte influência das religiões africanas.

Ele explica que durante a Segunda Guerra Mundial, uma série de agricultores perdeu o terreno para a construção da Barreira do Inferno. Esses agricultores foram levados para a Vila de Ponta Negra. Um dos impactos disso foi a mudança de atividade econômica da agrícola para a pesqueira. O crescimento desordenado, a falta de políticas públicas e a expansão das igrejas evangélicas fizeram com que as pessoas perdessem em quase sua totalidade suas raízes culturais como a relação com o Boi de Reis, o Côco e a tradição afro. Quase na totalidade, porque ainda é presente na música e na tradição oral do lugar. A idéia é que essa história vire um documentário.

Ponto de Cultura

O “Sons da Vila” se dedicava a ensinar música para as crianças da comunidade. Eles davam o instrumento e ofereciam aulas gratuitas. O projeto foi o responsável pela transformação do Centro de Cultura da Vila de Ponta Negra em Ponto de Cultura. Ainda com o alicate amarelo no bolso, Maíra conta que, por uma falta de organização e alguns problemas, o Centro não recebeu a terceira parcela da verba do Ministério da Cultura – mesmo eles tendo executado o projeto até o fim por dois anos. Ela reclama que faltou orientação quanto à burocracia estatal e a gestão do dinheiro. Hoje, quatro anos depois, eles ainda esperam pela terceira parcela.

Segundo dados da Fundação José Augusto, o Rio Grande do Norte tem hoje 63 pontos de cultura. Treze deles vindos da primeira leva do Minc, em 2004. O Centro de Cultura da Vila de Ponta Negra é um deles. Antônio Leal afirma que eles sempre inscrevem projetos em editais, mas que mesmo assim é difícil manter um Centro de Cultura na própria casa, porque o dinheiro muitas vezes não cobre gastos elementares como a conta de telefone, de água e de luz.

Eles trabalham em tempo integral na manutenção e nos projetos do Centro de Cultura. Maíra mostra, animada, o alicate amarelo e diz que teve que montar a rede de computadores do Centro sozinha. Aprendeu pela necessidade. E não foi só a rede – a instalação de equipamento de som, a construção do site e toda a manutenção do local. “Ainda tenho que colocar regras para as crianças na hora da exibição dos filmes, coisa que nunca imaginei que iria fazer um dia”, conta.

Maíra tem 26 anos e é formada em filosofia pela UFRN. Atualmente ela estuda para o mestrado. Sempre trabalhou no Centro de Cultura. A satisfação é visível quando ela se empolga e fala do futuro, dos projetos. A idéia é tentar patrocínio via leis de incentivo à cultura, viabilizar um projeto de documentário e de um albergue no local – de característica cultural – para ser uma fonte de renda fixa para o trabalho que desenvolvem. Enquanto não conseguem isso, segue atrás de editais para tocar o futuro. O seu Antônio, de barbas brancas, já disse: isso daqui é para o futuro, isso são dos jovens.

Sobre o Autor

Fabio Farias escreveu 33 materias no catorze.

Alguem que tenta ser jornalista, escritor, fotógrafo, cineasta e o que der na telha.

5 Comments on “Cultura na Vila”

  • dyego wrote on 31 outubro, 2009, 19:52

    O bacana de Maira é que ela tem idéia e (na maioria das vezes) põe na prática (lembra da banda? heheh). Falo isso pelas pessoas que nem idéias tem.

  • Mariana wrote on 29 março, 2010, 21:18

    Fiquei muito feliz de saber do paradeiro de Antonio Leal, cujos livros são fonte de inspiração pra mim… espero poder visitar o centro cultural em breve. Tudo de bom! Mariana

  • Mariana wrote on 29 março, 2010, 21:20

    E o albergue, já funciona?

  • Maíra wrote on 11 abril, 2010, 13:35

    Mariana, o albergue ainda não tá funcionando não mas estamos abertos a qualquer visita, sempre.

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