Gesto Cascudo: a delicadeza perdida
- quinta-feira, outubro 29, 2009, 19:36
- Reportagem, Resenhas, Últimas
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Anda estressado? Correndo atrás do tempo? Irritado com o trânsito cada vez mais lento e caótico da nossa quase-metrópole? Pois neste fim de semana temos a chance de fugir disso tudo, de viver através do teatro um tempo de urbanidade mais delicada, de convívio humano mais lúdico e poético. É o presente que ganhamos de Gesto Cascudo, peça de Henrique Fontes dirigida por Giovanna Araújo, que faz suas três últimas apresentações na Casa da Ribeira desta sexta até domingo ás 19:30.
A peça é o batismo de fogo do novo Grupo de Teatro Casa da Ribeira, composto dos atores Alessandra Augusta, Camila Morais, César Silva, Larissa Gurgell, Thiago Medeiros e Wesli Dantas. Tudo fruto do Projeto ArteAção, uma parceria da Casa da Ribeira com o Instituto Ayrton Senna que teve início em 2007 e envolveu alunos secundaristas do Atheneu, e das escolas Winston Churchill e Professor Ulisses de Góis. E, como padrinhos orgulhosos, desta vez todos os membros da Casa da Ribeira se envolveram e deram alguma contribuição direta para a montagem do espetáculo.
Partindo de História dos Nossos Gestos, de Câmara Cascudo, e de informações autobiográficas contidas em O Tempo e Eu, Henrique Fontes criou uma colagem de fragmentos do mundo ? sobretudo o mundo infanto-juvenil ? que o mestre da Junqueira Aires viveu e retratou nas suas obras. Assim o que o temos em cena é menos o Cascudo autor, e mais o espírito da província que ele viu e amou e que o viu crescer.
Giovanna Araújo trabalhou com os atores em busca da apropriação consciente dos seus próprios gestos corriqueiros, além de levá-los em pesquisa pelas ruas da cidade com o olhar atento para os movimentos que fazemos no dia a dia sem que nos apercebamos. Com o texto de Henrique e esse material vivo à mão, a diretora, que tem na dança o forte de sua formação, teve a sensibilidade de simplificar, de evitar excessos coreográficos, e assim conseguiu extrair dos atores um desempenho natural e cheio de frescor cênico, que compensa amplamente a natural falta de experiência de um elenco tão jovem.
Nesse ritual de passagem teatral, em que representam crianças e adolescentes, suas brincadeiras e suas descobertas afetivas e sexuais num tempo e numa cidade mais gentis, os jovens atores chegam inteiros e promissores ao outro lado da fogueira. De um ponto de vista talvez puramente subjetivo, destacaria especialmente o dengo teatral (e a gargalhada!) contagiante de Larissa Gurgell e a força expressiva de grande ator “in the making” de Wesli Dantas. Mas todos no grupo têm bela presença cênica e boa “química” de palco; todos têm momentos de brilho e contribuem com garra para o gostoso resultado.
E o resultado é que saímos mais leves – como se purificados ? ao final de Gesto Cascudo. E levemente nostálgicos da vida na cidade bem menor e mais tranqüila que fomos, e que a moçada de hoje conhece no máximo de velhas fotos que circulam na internet ou de histórias contadas pelos velhos da família.
Pois se havia, como sabermos, bem mais repressão e caretice naquele tempo, havia também a liberdade das brincadeiras soltas, dos jogos sempre na rua, fora do espaço opressor do lar patriarcal. Como a peça nos lembra, “todo mundo brincava de tica-tica, de garrafão, esconde-esconde, seu mestre mandou… Era tudo na rua, e o mundo todo sabia onde todo mundo morava, a hora que a mãe de todo mundo chamava, e o medo que todo mundo tinha.”
Não há como evitar sentir saudades de uma civilidadade mais doce que perdemos, quem sabe, para sempre.
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7 Comments on “Gesto Cascudo: a delicadeza perdida”
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Lindo Chico.
Obrigado pelas palavras e ficamos todos muito felizes que a peça tem podido envolver assim.
Aposto nesses meninos e meninas. Eles vão longe.
Grande abraço
Que bonito! Fico muito feliz que o resultado de todo o nosso trabalho tenha conseguido tocar os sentimentos de quem nos vê e viu. Fico muito feliz que os meninos, tão jovens, tenham conseguido mostrar o quão inteiros são e estão nesse trabalho. Fico muito feliz de ter podido realizar essa obra e agora beber junto com vocês desse licor. Gesto, Cascudo, uma realização muito feliz. Feliz também por suas palavras. Um grande abraço, amigo.
Obrigado amigo pelas as palavras,vc sera sempre bem vindo na casa da ribeira
abraço.
Fui à estreia. E chorei.
Caro Daniel, ontem, mesmo vendo pela tercdeira vez, precisei tirar os óculos mais de uma vez, pra enxugar os olhos. Fiquei tão comovido que foi difícil falar com com o pessoal no final.
Assisti, achei o maximo!
Queria só saber qual a maior dificuldade q vcs enfrentaram, na montagem do espetáculo?
E na questãos do momento da apresentação ali no palco! quais as dificuldades durante todas as apresentações? “tipoW, foi mais nevorsismo, barulho por parte do público?”