A arte underground de Binho Duarte
- domingo, outubro 18, 2009, 19:04
- Reportagem
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Sentado à mesa de um café, tendo como companhia apenas uma mochila branca e surrada, estava um rapaz magro, de altura mediana. Na carteira de identidade, o documento acusa a cidade de Cruzeiro do Sul, no Acre, onde viveu parte da infância, 31 anos não aparentados e um nome de batismo que lhe causa desgosto. Artista plástico, faz uso das cores – aliadas a materiais que variam da areia ao grão de arroz – para pintar, em qualquer plataforma, as ideias que não expressa através de palavras. O nome desse cara é Binho Duarte.
Contatá-lo foi um pouco trabalhoso, graças à sua aversão pelas tecnologias – ele não tem email nem telefone fixo, apenas um celular que permaneceu por quase dois dias desligado. Também não é do tipo que costuma sair muito de casa. “Só quando tem festa, show na Ribeira, alguma exposição legal, essas coisas”, justifica. Não vê TV e raramente assiste a filmes. Seu maior vínculo com as artes, além dos próprios trabalhos, é a música. A princípio, custou a entender que se tratava de uma entrevista e, desconfiado, porém com muita boa vontade, concordou em me encontrar.
Binho faz ilustrações no papel, pinta telas, vinis, CD’s, pedaços de madeira e o que mais der na telha. Desde os quatros anos descobriu nos lápis de cor um mundo à parte e, aos doze, que sua arte poderia render algo mais além dos elogios e amolações dos colegas de escola, que o abarrotavam com pedidos por mais e mais desenhos. Passou a cobrar pelas pinceladas e rabiscadas. Desde então, só tirou uns trocados durante um curto período da adolescência em que trabalhou numa loja de games. Fora isso, ele sempre viveu – ou tenta viver – de arte. Uma das razões, elencada diversas vezes ao longo da conversa, é que detestaria “trabalhar para patrão”. Hoje a sua única fonte de renda provém de encomendas de amigos e gente que ele não conhece, que chega até ele através da propaganda do boca-a-boca.
A ideia de mudar a forma como CD’s e vinis são apresentados, migrando da apreciação auditiva para a visual, surgiu em uma das andanças do artista pelos sebos de Natal. Certa vez, ao buscar algum LP entre as prateleiras, topou com vários deles fazendo as vezes de telas artísticas, pendurados na parede do estabelecimento. “Resolvi tentar também, só que do meu jeito”, diz.
Outra coisa a que Binho se dedica é o lambe-lambe, uma espécie de pôster artístico de tamanho variado cujo destino final é a rua. A maior parte dessas intervenções feitas por ele podem ser encontradas em Cidade Satélite, bairro onde o artista reside com a mãe e os dois irmãos mais novos. Ele conta que se diverte enquanto observa, anônimo, a reação dos passantes ao lambe-lambe. Outro pôster de sua autoria pode ser encontrado no muro dos fundos do colégio Floriano Cavalcanti (Floca). Na loja de discos do cenário underground Records, na Cidade Alta, uma pintura inacabada ainda espera pelas pinceladas definitivas de Binho.
Seus desenhos e pinturas refletem a influência de uma arte urbana e underground. O uso de cores fortes, a psicodelia, o surrealismo, o figurativismo e uma avalanche de referências musicais compõem a atmosfera caótica de seus trabalhos. Binho cita, entre seus ícones, Beatles, Black Sabbath, Iron Maiden, Pink Floyd, Barão Vermelho, Titãs, Engenheiros do Havaí e mais uma porção de bandas do new wave e heavy metal. Este último gênero musical o fascinou desde o início pelas ilustrações que estampavam as capas dos CD’s.
Apesar da dificuldade que demonstra ao pôr em ordem o caos reinante em sua cabeça na forma de palavras e sentenças razoavelmente lógicas, não restam dúvidas sobre a qualidade encontrada em seus trabalhos. Seu raciocínio atípico parece engolir o mundo que o cerca, para então regurgitar através de sua arte tudo que foi digerido de uma maneira muito própria. Caveiras, figuras solitárias, céus em tons absurdos e irreais, prédios e ET’s são algumas das imagens mais recorrentes nos CD’s e vinis que ele transforma. Munido de cola cascorex, tintas (acrílico, anilina, de carro e o que mais estiver disponível), recortes, glitter, clips de papel e canetas – “às vezes eu vou andando por aí, vejo a
lguma coisa legal e cato” – ele transforma o lixo da modernidade em arte que reflete, através de uma linguagem muito subjetiva, um mundo claustrofóbico que comove e gera empatia ao falar diretamente a cada observador.
Embora sua arte chegue de maneira tímida ao público, Binho sonha em sair da obscuridade efervescente em que se encontra para dar passos mais ambiciosos. “Meu sonho é expôr em outros estados e fora do Brasil”, comenta. Para se manter preparado, ele carrega sempre consigo apostilas de inglês e espanhol, dois idiomas que vem aprendendo sozinho. “Nunca se sabe quando vai rolar um convite aí, né”, suspira.
Postado ao lado de dois lambe-lambes que observa com um orgulho contido, o artista de aparência juvenil, nome de batismo escondido a sete chaves por cisma, boné virado para trás, camisa de flanela e all star preto pergunta, com simplicidade na voz, “Será que a galera aí do seu site vai dar valor?”.
Contato
Binho Duarte
9961-0530
Foto: Rayanne Azevedo
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13 Comments on “A arte underground de Binho Duarte”
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grande binho!
Pra mim esse binho dá de 10 x 0 naquele muralismo bem-comportado e repetitivo de Andruchak. Valeu, Rayanne.
Grande Binho!!!
Merece demais!
Binho, você é simples, ousado e sabe o que quer como artista. Parabéns!
Binho detona. Satétile gangstar.
Bela pauta.
Muito foda pautar Binho. Quem é do rock em Natal, sabe da dedicação que esse cara tem a cultural outsider… Esse aí realmente é um cara TRUE!
Binho, vc é foda!
Família Lado[R] paga pau pra você!
binho é reis puro!
as paredes pedem cores, os homens perdem suas cinzas….vlw binho, sorte nesses corres da vida
Tenho orgulho de ser teu amigo!
Desgraçado do Satétile Gangsta!
Sem dúvida, Binho está entre os maiores desenhistas cyberpunx da nossa geração. Ainda bem que esse cara está produzindo aí, junto a amigos e gerando imagens muitas vezes questionadoras dos valores imperiais adorados pela civilização maquinalista – o que demonstra grandeza, nesses tempos de tontos alegres. A escolha dos temas, a simplicidade e a complexidade de suas expressões são extirpadas de seu caos interior como se fossem o néctar de uma cultura renovada e, ao mesmo tempo, o veneno de uma sociedade doente. Eis um artista de verve intempestiva profundamente eficaz no que se propõe fazer com sua arte. Além das telas, dos vinis e dos cds, Binho está para ser lançado até pela universidade, junto com a parceria que mantém com o Grupo de Criação e Estudos Integrados Gaya Scienza. O livro intitulado Machinapolis e a Caosmologia do Ser, escrito por Lucas Fortunato, Edson Gonçalves Filho e Lisandro Loreto, e que está sendo editado pela Editora da UFRN, traz algumas seletas obras autorais de Binho para ilustrar os estudos filosóficos do grupo que está organizando o lançamento para breve.
Grande Binho!!!!!!!!!!
Merece demais²….