Dias melhores virão?
- sexta-feira, fevereiro 26, 2010, 16:23
- Reportagem, Resenhas, Últimas
- 6 comentarios

Texto por Milena Azevedo
Roteiros originais são raros na Hollywood do século XXI. Criar uma história nova virou algo retrô, démodé, praticamente uma aventura que tem como protagonista o cinema independente. Os grandes estúdios e os produtores preferem apostar em ideias advindas de romances, HQs ou games tarimbados, que já tem um público definido e pré-disposto a ver seus herois e heroínas ganharem vida dentro da sala escura.
Os filmes lançados em 2009 enfatizam bem essa prática da opção pela adaptação e pelo remake de sucessos do passado. Tanto que metade dos concorrentes ao Oscar 2010 de melhor filme são produções feitas com roteiro adaptado. Não condeno as adaptações em si, até porque uma adaptação bem feita é algo bacana de se ver e também ajuda na venda do livro ou quadrinho. O problema surge quando o cinema independente começa a flertar com argumentos não-inéditos. Podemos citar o exemplo de Preciosa – uma história de esperança (Precious), adaptação do romance “Push” da poeta californiana Sapphire.
Preciosa, o segundo filme dirigido pelo produtor Lee Daniels, que opta por trabalhar com temas polêmicos (A última ceia, O lenhador), custou 10 milhões de dólares. Ajudado pelo Festival de Sundance, e com nomes como Mariah Carey e Lenny Kravitz no elenco, conseguiu que a Lions Gate fizesse a distribuição internacional, contando também com a produção executiva de Oprah Winfrey. Faturou, só nos Estados Unidos, em pouco mais de seis semanas, quarenta milhões de dólares. É o drama do momento, principalmente após Mo´Nique levar o Globo de Ouro e o BAFTA de melhor atriz coadjuvante.
Lee Daniels retrata uma história fictícia, vivida no ano de 1987, mas que é, infelizmente, bastante corriqueira hoje. Meninas que são abusadas sexualmente por seus pais e tem em suas mães verdadeiras inimigas, que as maltratam porque as veem como “as putas que roubaram seus parceiros”, e algumas mães preferem fechar os olhos para não perder, além do marido, o provedor do lar.
Gabourey Sidibe interpreta Claireece “Precious” Jones, a Preciosa do título, jovem negra, pobre e obesa de 16 anos, vítima de incesto e todo tipo de humilhação dentro de casa. Ao descobrir que Precious está grávida de seu segundo filho, a diretora da escola tenta conversar com a adolescente, mas só obtém respostas grosseiras. Tentando ajudar Precious de alguma maneira, uma vez que essa seria expulsa da escola, ela lhe indica uma instituição de ensino alternativa chamada Each One Teach One, praticamente a única forma que Precious tem para continuar os estudos e não perder o cheque do seguro social que sua desumana mãe, Mary Jones (Mo´Nique), obriga-lhe a conseguir.
Precious tem baixa auto-estima e vive sonhando acordada em ser tudo aquilo que a vida até então lhe negou: rica, famosa e com um namorado branco a tiracolo. Ela encontra a oportunidade de se libertar de sua mãe e seguir sua própria vida quando Ms. Blu Rain (Paula Patton), sua professora lésbica (numa referência à opção sexual de Sapphire), lhe incentiva a caminhar sozinha e lhe faz acreditar que ela pode realizar todos os sonhos que tiver.
A atuação de Gabourey Sidibe, que fez seu debut nesse filme, é perfeita e fica fácil a gente torcer por ela, especialmente quando há a entrada em cena de Mo´Nique, incorporando uma megera cruel e amarga, que não tem um pingo de afeição e carinho para com a sua filha, tratando-a aos berros com palavrões e atirando-lhe objetos, desdenhando de sua neta com Síndrome de Dawn, mas que encena para a assistente social cenas de uma família feliz.
Com Preciosa, temos mais um filme que evoca a dura realidade dos negros menos afortunados na América, fazendo crer que, com perseverança, as injustiças sociais e a discriminação chegarão ao fim e eles encontrarão o seu lugar ao sol. Já vimos isso em À procura da felicidade, com Will Smith, e no outro concorrente ao Oscar desse ano, Um sonho possível, com Quinton Aaron. Pra mim, soa como se os negros precisassem de contos de fadas modernos para aguentarem engolir calados o pão que o diabo amassou, certos de que dias melhores virão. Mas pra isso não é necessário recontar uma história já escrita. Basta abrir a janela, ligar a TV, ler o jornal que enredos não faltarão. Ou, quem sabe, dar um pulinho nas favelas do Rio de Janeiro e enxergá-las não como algo exótico, mas como elas são. Porque o negro só consegue vencer se seguir o conselho de um antigo samba de Alcione:
“Negro não humilhe, nem se humilhe a ninguém. Todas as raças já foram escravas também. Deixa de ser rei só na folia, faça da tua Maria uma rainha todos os dias, e cante um samba na universidade e verás que teu filho será príncipe de verdade. Daí então, jamais tu voltarás ao barracão”.
Sobre o Autor
6 Comments on “Dias melhores virão?”
Trackbacks
Comente
Gravatars são pequenas imagens que você pode personalizar. Você pode conseguir uma em gravatar

Putz Melina… muito lindo o texto! Cada dia mais Fã de você…. Quanto ao filme ainda não vi, mais doida pra ver. Apesar de não ser uma realidade difícil de se encontrar, na verdade é algo que ja é muito rotineiro na sociedade, parece que só com filmes ou coisa do gênero, paramos para dar o mínimo de importância ao assunto e depois que sai de cartaz, tudo volta aonde estava, infelizmente.
Obrigada, Thamires. Uma pena que Preciosa teve sua estreia adiada aqui em Natal. Provavelmente será exibido pós-Oscar. Apesar de ser uma história para provocar lágrimas de forma fácil, vale o ingresso.
Milena lindo texto – PARABÉNS!
Parabéns pelo texto! Muito bom mesmo.
Oi, Milena. Vi o filme há algum tempo, concordo com você que a originalidade em Hollywood está cada vez mais relegada as produções independentes, mas ao contrário de você, não percebi um final muito redentor para o filme, na verdade a questão da miséria, do estupro ambivalente (aquele que ao mesmo tempo violenta e destrói, mas se torna para precious uma fonte às vezes culpada de prazer) está lá e é discutida, mas não acho que a história tenha a redenção de um “Em Busca da Felicidade” onde vemos na cena final o verdadeiro Chris Gardner atravessando a rua no seu terno de empresário bem-sucedido, acho que “Precious” é muito mais um filme sobre uma busca de subjetividade, de uma identidade perdida desde a infância e que, na realidade, não chegou sequer a ser construída, a meu ver não há lugar ao sol para Precious e ela tem consciência disso, o que começou a existir foi a percepção de humanidade, de chance de escolhas, do tomar as rédeas da própria vida, claro que isso poderia ser considerado por ela como uma redenção, mas ainda bem longe, daquelas velhas transformações do “patinho feio” tão tipicamente hollywoodianas. Beijos.