Rato de sebo
- domingo, fevereiro 7, 2010, 19:00
- Colunas, Pechinchas, Reportagem
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Por Alex de Sousa
Quando os carinhas da Catorze (na verdade um carinha, Fábio Farias) me convidaram para manter uma coluna na revista eletrônica, primeiro fiquei muito lisonjeado pelo convite, mas depois bateu aquele aperreio com a liberdade da proposta. Afinal, para quem é acostumado a escrever sob encomenda, qualquer coisa do tipo “manda um texto aí sobre o que você quiser” é garantia de dúvida esquizofrênica por um bom par de dias.
Depois de muito matutar, lembrei que, em priscas eras, ou seja, há uns quatro, cinco anos, mantive a coluna Sulanca no site da Velvet Records, a convite do se-vira-nos-trinta Marcelo, em que comentava discos garimpados em sebos. Apesar da vida curta da proposta (que rendeu uns quatro ou cinco textos) – até porque não me sentia muito à vontade, como ainda não me sinto, em escrever sobre música –, ache que valia a pena retomar a proposta e até ampliá-la um pouco.
Entonces, resolvi criar aqui na Catorze a ‘Pechinchas, bagatelas e galinhas mortas’, na qual a cada quinzena trarei para os amigos, agregados, conhecidos e aderentes uma resenha sobre um livro, uma HQ, um disco ou um filme que eu tenha adquirido num sebo, numa promoção, ou num momento de desespero de algum incauto por um precinho sensacional.
Porém, antes de trazer nossa primeira garimpagem, permitam que este arremedo de colunista dê algumas voltinhas ao redor do próprio umbigo.
Olhando com atenção minhas prateleiras, percebi que a maioria ampla, geral e irrestrita do meu modesto mas querido acervo se deve a algumas fontes, entre as quais se destacam: as doações (aqui com as honrosas participações de Carlão de Souza e Carlos Magno Araújo) e as compras em sebos, essa saborosa obsessão.
Frequentar sebos é um hábito cultivado desde que me entendo por gente. Literalmente. Tanto que nem lembro bem a primeira vez que entrei num, mas posso garantir sem pestanejar onde foi: lá no Sebo Vermelho, na época em que Abimael mantinha seu estabelecimento em cima do Jimmy Lanches, na rua Princesa Isabel. Era costume de papai bater ponto por lá semanalmente, numa sala comercial que nem era essas coisas todas, entulhada de prateleiras até o teto, onde se empilhavam e espremiam livros e discos em vinil. Acho que eu tinha uns sete, oito anos. Por aí.
Tem um outro componente nesta paixão. Boa parte de minha família materna é composta por comerciantes. Meus avós foram camelôs no Alecrim e eu mesmo nasci na avenida Dois, numa casa em frente ao camelódromo.
Viciado em quadrinhos desde a alfabetização, diariamente dava uns batidos não só nas cigarreiras em busca de novidades, mas também em alguns camelôs que trabalhavam exclusivamente com revista usadas. Hoje, são raros de se encontrar pelo Alecrim, mas lá pela segunda metade dos anos 80 o camelódromo abrigava vários deles. Eram pilhas e pilhas de publicações empoeiradas, num verdadeiro convite à sinusite. Foi nesse período em que troquei as revistinhas da Disney pelos quadrinhos de super-heróis, costume feio que mantenho até hoje.
Foi graças a esses caras que descobri Frank Miller barbarizando com a vida do Demolidor na Superaventuras Marvel; as aventuras intergalácticas dos Vingadores de George Pérez, com a primeira versão do Esquadrão Supremo; em que acompanhei ansioso as sagas de O Guerreiro e do Esquadrão Atari na Superamigos; e que decidi entrar no karatê por causa das historinhas de Shang Chi, o Mestre do Kung Fu e seu amigo Punho de Ferro na Heróis da TV, a mesma revista que me apresentou ao existencialismo verborrágico do Surfista Prateado de Stan Lee.
Cascavilhando pelos sebos, também acabei aprendendo que os quadrinhos eram muito mais que coisa de criança, apesar dos protestos em contrário de Jairo Lima. Foi escondido entre um exemplar e outro que consegui adquirir minhas primeiras revistas Circo e ainda umas graphic novels bonitonas de J. J. Muth, como Moonshadow, Blood e uma adaptação de um capítulo do Drácula, de Bram Stoker. Também foi com um sebista que obtive, lá por volta de 1989, 1990, o número 1 de uma publicação da qual nunca tinha ouvido falar antes, Sandman, de Neil Gaiman.
Por isso, é difícil para mim passar em frente a um sebo sem que dar um paradinha, nem que seja rápida, para conferir de longe as prateleiras em busca de algum mimo. Hoje, com a Estante Virtual, é bem mais fácil achar o que se procura a um preço camarada. Essa praticidade é uma mão na roda quando a gente está atrás de um título em especial, mas o grande lance de ir ao sebo está justamente em se achar algo que não se esperava encontrar de jeito nenhum.
É um tipo esquisito de bibliofilia. Não tenho muito tesão, por exemplo, por livros novinhos em folha, pois livrarias são sempre minha última alternativa. Exemplares raros e fora de catálogo têm lá seu charme, mas nada supera a sensação de botar as mãos numa edição que seja até bem conhecida, ou um livro de um autor pelo qual nutro admiração especial, sabendo que se pagou por ela um valor bem abaixo do chamado preço de mercado.
Se você tem esse tipo de paranoia, a gente há de se encontrar por aqui mais vezes, pelo menos enquanto a turma da Catorze tolerar essas e outras manias minhas. Até lá.
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Alex, se não é o mal do nome que nos aflnge, eu não sei o que deve de ser. Nem a sinusite e a asma que me acompanharam durante inúmeras idas ao pronto-socorro em impedem de sentir o cheiro de poeria e mofo dos sebos. É como você bem falou. A estante virtual tem sido uma mão na roda, mas a graça de encontrar algo que você nem procurava é que da o gostinho do sebo… E é isso aí. Estarei acompanhado seus textos nesse lugar empoeirado da Catorze. Atchim!
Nunca comprei na Estante Virtual (não é nenhum tipo de birra, imagine), mas continuo batendo ponto na Av. Rio Branco, religiosamente, sempre às sextas, catando algo nos sebos da área (incrusive, já esbarrei com o autor do texto acima várias vezes). Posso dizer que as melhores coisas da minha estante foram adquiridas em sebos. E até para quem ainda tem o hábito arcaico de comprar CD (e pior, vinil) também se pode achar coisas legais por lá. Como o Alex falou, a surpresa de encontrar algo incrível que vc não estava esperando é um prazer adicional que só os “sebosos” conhecem.