Imaginário Poético, nosso aliado…

elomar_IMBNão sei você, leitor/a. Mas em mim trava-se uma batalha diária entre as forças da inércia e as da criatividade; oscilo constantemente entre os miasmas paralisantes da preguiça de fundo de rede (ou dos distraimentos mais vulgares) e os ímpetos otimistas de engendrar qualquer coisa que seja que me articule criativamente com o mundo que me cerca. E neste calor então…

Isso sem falar em embates mais profundos, entre, por exemplo, a inveja e o que na tradução budista se chama de pramudhita, a virtude de alegrar-se genuinamente com a boa fortuna dos outros; entre, de um lado, o egoísmo e a misantropia e, do outro, a vontade de partilhar e de conviver. E por aí vai; melhor nem me estender muito. A questão fundamental é: o que fazer para nutrir em nós as inclinações mais luminosas, mais expansivas?

Uma das coisas que aprendi em contatos que tive com o budismo, já que falei nele, é que para progredir o caminhante deve guardar as portas dos sentidos, filtrar o quanto puder os estímulos que vêm de todo lado e nível de qualidade e acolher aqueles que possam ajudá-lo no seu crescimento espiritual.

Pessoalmente descobri faz tempo que tenho aliados naturais nas artes visuais, na poesia, na música e na filosofia (além das longas caminhadas noturnas), e tento trazê-las para junto sempre que possível, inda mais quando sinto que estou sendo vencido pela morbidez da preguiça existencial, pelo cinismo ou pelos sentimentos negativos em geral.

No cacofônico universo da internet em que andamos mergulhados cada vez mais fundamente, aprendemos com a experiência o que nos eleva, nos levanta o “astral”, e o que nos arrasta para a aflição e o pessimismo em relação ao mundo e à vida. Pois, na hora de buscar beleza, reflexão e elevação de alma, Imaginário Poético, um site recentemente descoberto, virou um dos meus refúgios preferidos. Uma maravilhosa dica de twitter que devo ao amigo filósofo @lucasmafaldo.

O site é editado em Belo Horizonte e se nomeia “revista eletrônica de artes, música, literatura e filosofia”. E tudo que andei garimpando por lá até hoje, em visitas quase diárias, me encantou pela alta qualidade e beleza, e pelo substancioso estofo reflexivo; que a editora Dana Paulinelli e seus parceiros são gente que estuda, livre-pensa, e duvida de certezas prontas.

Já numa das primeiras vezes, numa coluna chamada Poetas em Cena, dei de cara com este parágrafo desconcertante de Clarice Lispector:

“Por que publicar o que não presta? Porque o que presta também não presta. Além do mais, o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão.”

Uma afirmação tão bela quanto enigmática, que me obriga a um silêncio de surpresa e dúvida. E a reler, e reler. Na mesma coluna encontrei depois o Soneto do desmantelo azul, de Carlos Pena Filho (1929-1960), que começa assim:

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.

Certas coisas parecem tornar supérflua a questão – de resto possivelmente insolúvel ? do que é ou não é boa poesia. Mesmo assim, esse soneto (é preciso lê-lo todo, aqui) reforça uma pista: quanto mais vezes lemos um bom poema, tanto mais coisas novas e surpreendentes parecem brotar, ou se ocultar nele. E a colheita que a editora de Imaginário Poético faz nos deleita e nos convida também a um silêncio interior desapressado em meio à zoada e os atropelos do dia-a-dia. Que sem esse silêncio é difícil ouvir o que a poesia nos conta ou esconde no seu jogo de clareza-obscuridade.

E há algo do jogo tenso entre tempo-silêncio(-ser?) e pressa-barulho(-ter?) que parece tomar corpo nestes versos de José Paulo Paes, poeta e tradutor morto prematuramente em 98, e que ele chamou de Ex-Impromptu:

de onde vem este escolho
entre a mão e o olho?

por que tão rápida a hora
do aqui e agora?

entre o querer e o fazer
cabem quantos talvez?

ah, a bela imediatez…

Que tom o leitor dará ao último verso? Encantamento? Ironia? E para onde levarão esses três pontos? Parte da riqueza da boa poesia é abrir-se em questões múltiplas e, no limite, irrespondíveis. Quem vai a um poema e tenta prendê-lo num “quer dizer isso ou aquilo”, puxar suas brasas ardentes para uma só sardinha de sentido, arrisca-se seriamente a perder o melhor do banquete. Como diz o velho menino Manoel de Barros noutro canto do site: “Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.” Poesia, se não nos deixa atônitos nalguma medida, talvez não valha esse nome.

Noutra visita, numa coluna chamada Tupi or not Tupi, minha atenção foi pescada por uma colagem de textos de Di Cavalcanti. Ele fala do seu amor pelas mulatas ? que surpresa! ? e pelo carnaval, e do caráter fundamentalmente brasileiro de seu modernismo; mas faz também esta curiosa afirmação sobre a experiência de ter vivido em Paris:

“Paris pôs uma marca na minha inteligência. Foi como criar em mim uma nova natureza e o meu amor à Europa transformou meu amor à vida em amor a tudo que é civilizado. E como civilizado comecei a conhecer a minha terra.”

Isso no início do século XX, quando Paris era a capital cultural do mundo, meca obrigatória para artistas e literatos de todo o Ocidente; quando se viajava de navio a vapor e o meio de comunicação mais moderno era o telégrafo. Hoje, com o mundo ao alcance instantâneo de nossos laptops, talvez valha uma provocação: o que significa essa tal de civilização? Por onde começamos a “conhecer nossa terra”, e quais os seus limites, e os nossos? O que, enfim, entendemos por esse “conhecer”?

Temos no IP boa companhia para essas interrogações e muitas mais. Quem gosta de filosofia pode conferir, entre outras, uma seção chamada Flexas de Laocoon, onde Dana P. se propõe “apresentar breves reflexões filosóficas por meio de imagens poéticas” partindo de “presentes enigmáticos que os gregos nos deixaram e (…) têm seu porto final na vida cotidiana.” O texto sobre o célebre fragmento Panta rei, de Heráclito, para citar apenas um, é um primor de argúcia questionadora, e de bom humor.

Imaginário Poético é mesmo um lugar muito especial para se flanar com mente e sentidos bem abertos nas necessaríssimas pausas no corre-corre que se pretende vida moderna. Aliás, acaba de aparecer lá um “Elomar em 21 Cantadas” proposto por César Miranda, que assina a seção Imaginário Musical Brasileiro. A “lista” ? como convém, tratando-se de Elomar ? é uma boa sacolejada nas certezas da nossa “mudernage” ofegante e hiperativa. E César M. oferece, de quebra, vários links para nossa “ilustração musical” sobre o bardo cabreiro do Sertão da Bahia. Fundamental. Urgente.

Para não me estender mais, direi: isso aqui é só uma pequenina amostra de tudo de bom que há por lá; o que me faz pensar nas Minas Gerais, de serras e vales e tesouros, tantos, de onde Dana e seus parceiros compartilham esses ricos filões de arte, literatura, música e filosofia. É sua vez, leitor/a, de ir conferir: http://www.imaginariopoetico.com.br/

um abraço.

Natal, 26 de janeiro de 2010

Sobre o Autor

Chico Moreira Guedes escreveu 9 materias no catorze.

4 Comments on “Imaginário Poético, nosso aliado…”

  • Álisson da Hora wrote on 26 janeiro, 2010, 12:01

    O IP também se tornou leitura obrigatória para mim, sem contar que a Dana é doce e acessível, um modelo de pessoa a ser seguido nestes dias tão selvagens…

    abraços, favoritei também a 14!

  • César Miranda wrote on 29 janeiro, 2010, 19:02

    Obrigado, Chico.
    De fato, é mais que urgente que se conheça Elomar.
    Gosto muito da Revista Catorze.
    Grande abraço

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