Entrevista com Orlandelli
- domingo, dezembro 6, 2009, 15:11
- Quadrinhos, Reportagem
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Os quadrinhos com breves histórias, as tirinhas, sempre foram muito populares nos jornais impressos. Com a chegada da internet o acesso a elas aumentou e a sua difusão também, seja em blogs ou perfis do Orkut. Observando isso, a revista catorze traz uma série de entrevistas com quadrinistas que estão na rede e que você não pode deixar de ler.
Vamos começar com Orlandeli. Natural de Bebedouro, São Paulo, ele trabalha na área desde 1994. Você provavelmente já deve ter lido alguma tirinha do Grump, o seu personagem mais famoso, nos jornais ou na revista Mad Nº20.
Orlandeli é um dos autores que participa do livro MSP 50, em homenagem aos 50 anos de Maurício de Souza, o criador da turma da Mônica. Colaborou para várias edições do livro “Front”, organizou e foi co-autor do livro Central de Tiras – ambos reúnem vários autores nacionais de quadrinhos –, além de publicar charges e cartuns para a revista Bundas, O Pasquim 21, e Look (Japão). Em seu currículo figuram prêmios como o primeiro lugar no 35º Salão Internacional de Humor de Piracicaba em 2008 (tiras), primeiro lugar FIHQ (Festival Internacional de Humor e Quadrinhos) 2006 (cartum) e terceiro lugar no Salão de Humor Gráfico, na Espanha (2004).
Orlandeli bateu um papo com a catorze e falou um pouco sobre fazer quadrinhos no Brasil, o início de carreira, novas tecnologias de leitura e seus novos trabalhos.
Catorze: Você é um exemplo de um quadrinista da nova geração e já tem um certo reconhecimento. Quais são as principais dificuldades que um artista tem em fazer quadrinhos no Brasil e ser reconhecido por isso?
Orlandeli: A falta de um mercado forte para o quadrinho nacional ainda é um grande problema. E nem é apenas pelo fato de não ter onde publicar. Produções independentes e a internet tem servido bem para desovar a produção e chegar até os leitores. O problema é que, na maioria dos casos, os quadrinhos acabam sendo apenas uma atividade paralela. É muito difícil conseguir uma renda significativa apenas com a produção de quadrinhos. A maioria dos autores acaba tendo que dedicar boa parte do tempo a outras atividades para compensar o lado financeiro. Com isso se produz menos e em condições desfavoráveis (cansado, de madrugada…). Isso tudo atrasa muito o desenvolvimento dos quadrinhos por aqui.
O autor precisa vencer isso e procurar produzir constantemente. Aprendendo com os erros, experimentando… A produção constante é fundamental para o amadurecimento do trabalho. O reconhecimento é consequência.
Catorze: Você começou sua carreira com tirinhas em jornais. Antes disso você fez fanzine ou outra publicação independente? Como surgiu a oportunidade de fazer tiras pro jornal Diário da Região?
Orlandeli: Sim, na época não tinha blog e essas coisas de internet, a produção independente era a melhor forma de mostrar o trabalho. Um deles foi o jornal “Galeria”, um tablóide cultural produzido junto com alguns amigos. Durou doze números e acabou rendendo uma parceria com o Sesc. Nessa mesma época fizemos a revista “Lodo”, só de quadrinhos. Depois lancei a revista “Violência Gratuita” com os personagens da tirinha que eu publicava no Diário da Região. Vendia uns anúncios para bancar os custos da gráfica e distribuía gratuitamente em vários pontos da cidade.
A primeira vez que publiquei no Diário foi em 95. Eles resolveram abrir um espaço no jornal para os cartunistas da região. Um espaço muito bom, diga-se de passagem, pegava a página toda em altura. Dava umas dez, doze tiras. Depois de um ano cortaram quase todos. Daquela leva ficamos eu, o Carlos Oliveira e mais umas tiras estrangeiras. Publiquei até 97. Depois, em 2003, fui contratado como ilustrador e chargista. Ofereci novamente a tira e voltei a publicar diariamente desde então.
Catorze: O sonho de todo quadrinista iniciante sempre foi ter seus quadrinhos publicados em revistas de grande distribuição. Com o surgimento de blogs e a venda on-line de revistas feitas pelos próprios autores, você acredita que isso vai mudar?
Orlandeli: Não penso que uma coisa substitui a outra. Publicar em um grande veículo continua sendo uma ambição para os quadrinistas, a diferença é que o autor não depende apenas disso para conseguir mostrar o seu trabalho. A internet e a publicação independente cumprem bem esse papel, é uma forma a mais de se chegar ao leitor, e, por que não, um primeiro passo para publicar em um grande veículo.
Catorze: O Kindle vai revolucionar a relação do leitor com o impresso? No universo dos quadrinhos como você acha que vai ficar essa relação?
Orlandeli: Creio que isso será inevitável. Deve afetar toda publicação impressa, portanto, também os quadrinhos. Mas não acredito no fim do impresso. Penso ser mais uma opção de suporte. Sempre existirá aqueles que preferem o contato com o papel. E nos quadrinhos ainda tem o lance da imagem, que, ao meu ver, no impresso é bem mais interessante. 
Catorze: Alguns artistas estão partindo para construções mais experimentais, como Laerte e Rafael Sicca. Qual sua opinião sobre esse trabalho? Esses caras estão na vanguarda?
Orlandeli: Acho ótimo. É um tipo de quadrinho que não se pauta no “humor”. É mais para sentir do que para entender. Pode-se dizer que ampliou o conceito que define “tiras de jornal”, que tinha como uma das principais características terminar com “uma piada”.
Sem dúvida abre novos caminhos, novas possibilidades para esse tipo de publicação.
Catorze: Quais serão seus próximos trabalhos com quadrinhos?
Orlandeli: Fora a tira do “Grump” diária, a do “(Sic)” semanal e alguns pequenos projetos paralelos que sempre aparecem, pretendo produzir uma história mais longa para o próximo ano. Uma Graphic Novel de umas 60, 70 páginas. Já tenho uma história em mente, mas ainda preciso formatar para ver como fica.
Catorze: Você tem em vista alguma publicação impressa para as tiras “(sic)”?
Orlandeli: O “(Sic)” vai virar livro em 2010. A tira foi uma das vencedoras do Programa de Ação Cultural (ProAc) desse ano. Na prática significa que o governo do estado libera uma verba para fazer um livro com tiragem mínima de mil exemplares. Será uma coletânea com todas as tiras e deve ser lançado até a metade do ano.
Para ler mais tiras do Orlandeli : www.blogdoorlandeli.zip.net
Ou conhecer seu trabalho como ilustrador: www.orlandeli.com.br
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Parabéns à Revista 14 pela entrevista com o Orlandeli. Conheci os trabalhos dele, quadrinhos e ilustrações, no Diário da Região, de São José do Rio Preto (SP), onde também trabalhei como repórter. Gosto dos quadrinhos. Mas, fã, fã mesmo, sou das ilustrações dele. O que ele faz nas revistas do Diário, não fica a dever nada a nenhum ilustrador internacional. Ao contrário, são melhores que as de muitos deles. Além do que, o Orlandeli é um bom caráter admirável. (Júlio Cezar Garcia – jornalista)