Xico Sá & Lazarilho de Tormes

garrotillo de Goya

“Parente muy longínquo pero distante apenas no tempo e nos mapas”

A escrita de Xico Sá é descoberta recente pra mim. Conhecia só de nome. Aí outro dia estou eu sossegado tomando um capuccino numa livraria dessas, lendo calmamente o mui agradável A cabeça do futebol, cortesia de Carlos Magno Araújo, editor, quando, de repente, pá, a pancada: “Porra, o cara chega em casa enfadado, puto, judiado, banzo da porra da derrota, aquele gol contra aos 47 do segundo, caralho, e a mulher, como se nada tivesse acontecido, só pensa em foder…”

Carai, o que é isso? pensei. E era o diabo esperneando, viciante, indeixável pela metade: “O Crime da Mesa Redonda”, contribuição sangrenta do referido escriba ao pequeno volume futebolístico da Casa das Musas. E eu comigo: porra, como só vim conhecer esse cara agora, já praticamente na terceira idade?!

Agora pensei uma coisa, deixe eu dar uma desviada. Se The Catcher in the Rye, a obra-prima de J.D. Salinger, aqui chamado, pra mim erroneamente, de O apanhador no campo de centeio, tivesse a tradução que merece no Brasil ? não essa broxosa que há por aí nas livrarias ? ela teria um vigor parente dessa escrita de Xico Sá, como tem no original em inglês.

Agora voltando. Acho que foi uma tuitada de @lexdesouza ? boa como tantas dele, aliás ? que me levaram a http://carapuceiro.zip.net/ , onde Xico Sá entoca parte de sua rica muamba. Ele tinha postado uma lista de livros que valiam um curso de jornalismo inteiro e + alguma coisa, digamos: um mestrado-doutorado, hehe. Mas isso é papo pra outro dia, talvez. Sei que voltei lá poucos dias depois e encontrei um romance saído do forno, pronto pra baixar em pdf, Caballeros Solitários Rumo ao Sol Poente, escrito em portuñol, e passado em San Pablo, SP. Pois bem, no começo do prólogo, há um trecho em que Xico Sá se assume descendente da linhagem picaresca do Lazarillo de Tormes, o saboroso romance anônimo espanhol, publicado pela primeira vez em 1554. Xico usa, entre outras, a frase que vai entre aspas no sub-título acima. Eu, como fã do Lazarillo, fiquei todo ancho por entender o valor da citação, oh vanitas!

Depois me perguntei: será que a rapaziada que lê Xico Sá conhece Lazarillo de Tormes? Se não, acho que vale a pena conferir essa pequena jóia. Há, inclusive, uma edição L&PM Pocket de 2005, dessas que cabem no bolso, nos dois sentidos; e, pros impacientes, são só 100 páginas, de puro deleite e sabedoria.

O dito Lazarillo de Tormes, ou Lazarilho, como ficou na tradução, é um moleque assaz esperto que narra sua vida desditosa e as virações e trambiques que tem que providenciar pra ir escapando vivo como membro legítimo da mui lascada maioria absoluta de miseráveis que chafurdava sob o absolutismo espanhol no século 16. Sua desafortunada mamacita, mais apertada ainda depois de perder dois maridos meliantes para as garras da justiça, o primeiro tendo sido o pai do pequeno Lázaro, resolve dá-lo a um cego que lhe quer para guia.

O cego em questão revela-se um rufião de primeira, mestre insuperável em tramóias as mais abrangentes pra tirar dinheiro dos crédulos e incautos em geral, mas, para desgraça de Lazarilho, também um miserável ranzinza, que trata seu jovem guia a (muito pouco) pão e água.

As observações sociais e morais penetrantes que o autor põe na boca de Lazarilho, e as peripécias que este apronta contra o cego pra tentar garantir mais pirão no gogó ? com pouco sucesso e muito castigo cruel resultante, diga-se de passagem ? é que dão ao romance o tempero gostoso que prende, diverte e faz pensar o leitor. Lazarillo logra afinal livrar-se do cego numa cena que é puro Tom e Jerrry avant la lettre em 400 anos, pois faz o cego pular com todo ímpeto contra um poste, pensando que está a saltar um riacho, depois do que nosso herói, obviamente, escapa para o mais longe possível.

Apenas pra cair, pouco depois, sob os serviços dum clérigo, que em termos de lábia e malandragem é pau-a-pau com o cego, mas no quesito mão-de-vaca chega a superá-lo, para o continuado infortúnio e desolação de Lazarillo, que só escapa da inanição total por via, naturalmente, de mais trambicagens contra seu novo algoz disfarçado de patrão. Seguem-se novos amos, novas peripécias e novos insights cortantes sobre as fraquezas humanas. E durante todo o romance vamos sendo apresentados com muito humor e igual agudeza crítica à injustiça, às iniqüidades a que os pobres estavam submetidos naquele tempo. Estavam? Naquele tempo? Muitas vezes durante a leitura do Lazarillo de Tormes temos a sensação que a história não é tão velha assim, afinal.

Essa deve ser uma das qualidades que definem os chamados: clássicos da literatura.

Nota do Chico
Olá moçada!

O convite de Fábio, pela equipe da Catorze ? que, aliás, muchas gracias, foi uma boa massageada no ego do ancião aqui ? era pra fazer uma “coluna de literatura”. Como não sou especialista nem profundo conhecedor desse vasto e variegado mundo, mas só leitor curioso, com gostos e interesses pessoais, como todo mundo, fiquei meio cabreiro com a responsa. E me lembrei também de outras coisas que me interessam e sobre as quais gostaria eventualmente de dar um pitaco ou outro, entre elas o vasto, mais variegado ainda, e até potencialmente explosivo universo das artes visuais. Como os guerreiros e guerreiras da 14 toparam gentilmente me permitir esse jogo de cintura, aqui vamos nós. Wish me luck!

Pintura: “El garrotillo”, de Francisco de Goya (1746-1828)




Veja também:

  1. A Esmeralda de François
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8 Comentários to “Xico Sá & Lazarilho de Tormes”
  1. Eugênio disse:

    Chico, depois da sua informação que estavas por aqui na Catorze corri pra conferir e degustar seu papo. Bom como sempre. E o melhor, cheio de “aplicações” que nos fazem navegar com gosto nesta rede às vezes tão confusa e cheia de pegadinhas que é a Net.
    Abração,

  2. chicomgue disse:

    Opa, Xico, quanta honra sua visita, dotô! Assim eu é que vou ficar prosa demais da conta.
    grande abraço, cmg

  3. xico sa disse:

    Xará, assim eu fico todo metido a besta. te agradeço muito pelas palavras. daquelas q animam o cabra pra continuar na trincheira acendendo o lampiao -com bala- na noite escura. a sua generosidade com a minha escrita me deixou besta e comovido. vou tomar uma por isso,grande abraço,xs

  4. Jakeline disse:

    Legal.

  5. Carlos Fialho disse:

    Que maravilha encontrá-lo aqui, Chico! Já virei freguês! Rapaz, essa Revista Ctorze é massa demais.

  6. Muito bem lembrado, Lex! A família é extensa e, entre os mais antigos, inclui ainda Gil Blas, de Lesage, francês do séc.18 (baixável aqui, iningris: http://www.exclassics.com/gilblas/gbintro.htm), que eu não li, mas quem leu considera uma jóia rara, e por aí vai.

  7. Alex de Souza disse:

    Aê, Chicão, em boa companhia, hien, cumpadre? Vale lembrar ainda a semelhança, que não é mera coincidência, do Lazarilho com o Chicó & João Grilo, de Ariano Suassuna: dois pobres que, apesar da esperteza, vivem assombrados pela fome.

  8. Rayanne disse:

    Parabéns pela coluna, Chicomgue! Não conheço esse livro Lazarilho, valeu pela dica!

    Quanto ao Xico Sá, o cara é mesmo uma onda. Escreve como quem bate um papo em mesa de bar. Já o J.D. Sallinger e seu The Catcher in the Rye foi potencialmente desapontador pra mim, que me debrucei sobre a (péssima) versão traduzida cheia de expectativas. A gente acha que não, mas no final das contas a tradução faz uma diferença enorme!

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